O Periódico Original
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Fascículos (10 textos britânicos)
- N. 30 · 04/03/1838 Costumes Ingleses
- N. 02 · 20/08/1837 Uma Noite no Mar
- N. 09 · 08/10/1837 O Testamento
- N. 06 · 17/09/1837 O Livro da Vida
- N. 10 · 15/10/1837 O Sedutor
- N. 08 · 01/10/1837 Manuscrito Achado…
- N. 11 · 22/10/1837 As Honras Hereditárias
- N. 14 · 12/11/1837 Terêncio o Alfaiate
- N. 12 · 29/10/1837 Álibi
- N. 31–34 · 03/1838–04/1838 Esboços Sicilianos
Costumes Ingleses — Um Amador da Vida Campestre
Fieldlove era um rapaz londrino que, como seu nome ironicamente indicava, sonhava morar no campo, longe do barulho e agitação da cidade grande. Órfão desde pequeno, vivia com seu único parente, o tio materno Mr. Urby, que o educara como seu próprio filho.
Às vésperas de se aposentar de seu cargo de corretor da Companhia das ÍndiasCompanhia das Índias — empresa comercial britânica — cargo que lhe rendera fortuna considerável —, o velho e solteiro Mr. Urby decide que é hora de Fieldlove dar seu "primeiro passo na vida ativa".
Foi assim que Fieldlove chegou aos 21 anos. Os cinco anos de seu noviciado se haviam passado com grande satisfação dos senhores Bags, Bales & Co. Graças a um trabalho infatigável, sua mão tinha-se consideravelmente melhorado.
Aos 40 anos, já casado e com três filhos, Fieldlove pôde finalmente pensar em realizar seu sonho. Com a morte de Mr. Urby, recebera uma herança de 25 mil libras — quantia suficiente para se aposentar e comprar a propriedade de Humdrummie, a 60 milhas de Londres.
Sua alegria, porém, teve curta duração. Com a chegada do inverno e os dias cada vez mais curtos, às quatro da tarde Fieldlove já estava de volta de seus afazeres campestres. Pouco dado a conversas e sem os divertimentos que Londres oferecia, o casal logo percebe que as noites no campo podiam ser bastante longas e tediosas.
Voltou para Londres, e continuou, não seus negócios, mas suas relações. Sua honra proporcionou-lhe consideração, e muita gente apreciando sua inteligência quando lhe pediam conselhos, deram-lhe seus sufrágios para importantes cargos da administração da cidade, e talvez que, se Deus lhe der vida, se realize a profecia de seu tio Urby: talvez seja Lord Maire.
Genealogia do Texto
NÃO é a fonte da versão brasileira
O Mapa das Fontes
Rede em 3 camadas — visualize o ecossistema de importação literária e o "Filtro Francês"
Dos 10 textos britânicos do Gabinete, 7 passaram primeiro por esta revista francesa. A tese nomeia apenas as 3 exceções; os demais são inferidos por exclusão.
A Galeria das Visões
Comparação tripartida — contraste as três literaturas presentes no Gabinete de Leitura
Laboratório do Tradutor
Mini-game: "Quem Escreveu Isso?" — identifique a origem dos trechos anonimizados
A Tese em Detalhes
"Visão da Modernidade: A Presença Britânica no Gabinete de Leitura (1837-1838)" — Maria Angélica Lau Pereira Soares (USP, 2006)
📊 O Corpus: Proporção Real, Não Aparente
O periódico continha 92 títulos de prosa de ficção no total, mas apenas 10 textos foram identificados como de origem britânica. Isso significa que a influência britânica era minoritária em quantidade, mas desproporcional em impacto qualitativo.
| Camada | Mecanismo | Efeito |
|---|---|---|
| 1. Quantitativa | 10 de 92 textos ficcionais (~11%) | Influência minoritária, mas qualitativamente distinta |
| 2. Tradutória | 7 dos 10 textos britânicos tiveram versão francesa na Revue Britannique (3 exceções: O Testamento, As Honras Hereditárias, Costumes Ingleses) | Processo de tradução em duas etapas: inglês → francês → português |
| 3. Retórica | Galeria Parlamentar britânica × "Oradores Parlamentares" no Jornal dos Debates | Semelhança textual notável entre os modelos (hipótese cautelosa da tese) |
🌉 O Filtro Francês: A Revue Britannique como Ponte
Dos 10 textos britânicos identificados, 7 tiveram versões francesas na Revue Britannique — uma revista francesa que selecionava, traduzia e adaptava o material inglês antes de enviá-lo ao Brasil. A "Grã-Bretanha" que chegava ao leitor brasileiro era, na maioria dos casos, uma Grã-Bretanha já interpretada pela sensibilidade francesa.
— Soares, 2006, p.135
✂️ Distância Tradutória: Como o Brasil Reescreveu a Inglaterra
As traduções de origem britânica sofreram alterações sistemáticas e significativas, enquanto as francesas eram notavelmente mais literais. O achado mais original da tese é demonstrar que os tradutores brasileiros adaptaram a ficção britânica às expectativas do público local.
| Elemento no original inglês | O que aconteceu na versão brasileira |
|---|---|
| Ironia do narrador | Diluída ou eliminada — narrador crítico tornou-se mais neutro |
| Caráter caricatural de Fieldlove | Suavizado — personagem ganhou contornos mais "humanos" |
| Crítica à sociedade capitalista | Atenuada — esvaziamento da crítica em "Uma Morada perto de Tudo" e "Costumes Ingleses" (as duas únicas narrativas com pano de fundo capitalista) |
| Final irônico | Substituído por desfecho mais "positivo" e edificante (ex.: "talvez seja Lord Maire") |
| Digressões do narrador | Cortadas — texto ficou mais ágil e linear |
| Crítica ao "modo de ser dos irlandeses" (em "Álibi") | Desaparece do texto brasileiro (Soares, 2006, p.125) |
🏛️ A Galeria Parlamentar e o Jornal dos Debates
A seção "Galeria Parlamentar" do Gabinete publicava sketches de parlamentares britânicos (como John Wilson Croker) em termos de guerra, combate e estratégia. Soares nota que um artigo do Jornal dos Debates sobre parlamentares brasileiros (especialmente Bernardo de Vasconcelos) emprega metáforas bélicas semelhantes.
— Soares, 2006, p.81 (síntese de passagem da p.81)
🏛️ O Gabinete como Laboratório
Marlyse Meyer compara a prática da tradução de prosa de ficção e romances em folhetim na primeira metade do século XIX a "um verdadeiro laboratório", onde os primeiros homens de letras aprenderam com modelos estrangeiros e experimentaram uma linguagem mais solta. Antonio Candido ressalta, por sua vez, a importância das traduções de ficção para a formação do romance brasileiro.
👑 Metáfora de Maintenon/Scherazade
O prefácio inaugural usa a história de Madame de Maintenon — que substitui o jantar fraco por histórias encantadoras — como alegoria do próprio periódico: sem recursos materiais, oferece narrativas como alimento espiritual. Uma "Scherazade da era moderna" (Soares, 2006, p.1).
🎯 A Missão Civilizatória
Os redatores se viam como missionários da leitura, formando um público leitor para a ficção em um Brasil onde o romance ainda era gênero emergente. Projeto pedagógico explícito: desenvolver "o gosto para leituras mais longas e refletidas" (Soares, 2006, p.29).
⚖️ Duas Faces da Albion
A Grã-Bretanha aparece de forma ambivalente: na ficção, como fonte de entretenimento e aventura; nos textos não-ficcionais (Galeria Parlamentar, crônicas), como modelo de modernidade política, institucional e civilizatória — o Parlamento britânico como referência.
🔀 Estratégia Editorial
O periódico não apenas traduzia, mas recontextualizava: adaptava títulos (ex.: inclusão de "Costumes Ingleses" no título de "A Cockney Country-Gentleman"), inseria comentários, misturava textos britânicos com franceses e brasileiros, criando um mosaico cultural que dialogava com o público local.
🧩 Contribuição Original
A dissertação preenche uma lacuna nos estudos sobre a formação do romance brasileiro, mostrando que a influência britânica — frequentemente ofuscada pela francesa — foi substancial e estruturante nos primórdios da prosa ficcional brasileira.
📰 Dados do Periódico
| Título completo | Gabinete de Leitura, Serões das Famílias Brasileiras, Jornal para todas as Classes, Sexos e Idades |
| Período | 13/08/1837 a 08/04/1838 (35 números) |
| Local | Rio de Janeiro, Tipografia Commercial (Rua do Hospício, n.º 66) |
| Proprietário da tipografia | Josino do Nascimento Silva |
| Formato | 8 páginas semanais, 3 colunas por página (~280 páginas no total) |
| Conteúdo | 92 títulos de prosa de ficção (14 nacionais, 78 traduzidos) — mais de ¾ do periódico era ficção |
| Subscrição | 2$400 rs/trimestre · 4$000 rs/semestre · 6$000 rs/ano |
| Exemplar avulso | 200 réis |
📚 Fontes Britânicas Identificadas (na tese)
| Tipo | Publicações |
|---|---|
| Revistas literárias | Blackwood's Magazine (escocesa), New Monthly Magazine, Retrospective Review, The Metropolitan |
| Giftbooks | Forget Me Not (1823–1847), Literary Souvenir (1825–1835) — encadernações luxuosas voltadas ao público feminino |
| Autores britânicos | Bulwer-Lytton, Crabbe, Richard Steele, John Poole, Robert Macnish, T. C. Grattan, Edward D. Baynes |
| Autor americano | Washington Irving (integrado ao circuito anglo-saxão) |
🗂️ Estrutura dos Capítulos da Tese
| Capítulo | Tema |
|---|---|
| 1 — Continuar-se-á | Quem eram os redatores; condições de produção da imprensa da época |
| 2 — O que é um Gabinete de Leitura? | Conceito e chegada dos gabinetes de leitura à corte do Rio de Janeiro |
| 3 — Viagem à roda d'um prefácio | Análise do prefácio inaugural (Maintenon como metáfora de Scherazade moderna) |
| 4 — A missão do intelectual | O projeto civilizatório dos redatores e seu papel formativo |
| 5 — Visões da Albion | Representações da Grã-Bretanha (Albion = nome poético da Inglaterra) |
| 6 — A nação britânica no Gabinete | 6.1 Galeria Parlamentar (textos não-ficcionais) · 6.2 Prosa de ficção britânica (10 textos) |